Start:     Nov 25, '05



Sexta-feira, 25 de Novembro de 2005

Opinião
O melancólico, mas esclarecedor, fim da CPMI da Terra
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Terra encerrou seus trabalhos esta semana. E terminou mal - rachada. Para começar, apreciou dois relatórios: o do relator, deputado João Alfredo, do PSOL, e o do presidente da Comissão, senador Álvaro Dias, do PSDB.
Relatório de presidente é novidade. Quebra toda a lógica do trabalho. O lógico é que o relator, relate e o presidente, presida. Se a maioria da Comissão rejeitar o parecer do relator, ela própria elege um novo relator para proferir o voto majoritário. Quando o presidente da comissão se antecipa e dá um parecer absolutamente parcial, está instalada a desordem. Desordem esta desejada pelos que fazem de tudo para bloquear a reforma agrária, com os olhos voltados para o voto dos latifundiários e de seus aliados. O objetivo claro do relatório do presidente da Comissão, senador Álvaro Dias, revelado, aliás, pelo modo faccioso como presidiu os trabalhos, é criminalizar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), porque sabe que a organização e a conscientização do povo da terra é o caminho para o fim do latifúndio no Brasil.
O resultado da Comissão precisa ser bem analisado pelo trabalhador. É mais uma prova daquilo que o sociólogo Florestan Fernandes nos ensinou: a classe dominante brasileira completou a sua revolução burguesa em 1964 e, a partir daí, não tem mais qualquer função civilizatória a cumprir na sociedade. É uma classe dominante parasita. Não cede absolutamente nada ao povo.
Basta ver que até hoje o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, legítimo representante do agronegócio, recusa-se a assinar a portaria que estabelece os novos índices de produtividade do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) - promessa formal do presidente Lula para acelerar o processo de identificação de terras a serem desapropriadas, feita em maio deste ano!
O texto apresentado pelo relator João Alfredo mostra questões fundamentais, como a imensa concentração de terras nas mãos de poucos, a violência crescente e a organização dos sem-terra como única alternativa de sobrevivência. Por isso, não adianta alimentar ilusões. O trabalhador rural sem-terra só conquistará o seu pedaço de chão se for capaz de mobilizar a massa de pobres que vivem no campo e se contar com a solidariedade dos explorados das cidades para criar a pressão popular - sem a qual as coisas ficarão exatamente como estão. Os lutadores do povo pertencentes a outras classes sociais podem e estão ajudando essa luta.
Não dá para ficar triste, cobrar lealdades, sentir-se vítima. O capitalismo não tem entranhas mesmo. Só entende a linguagem da força. Se os trabalhadores rurais sem-terra não tiverem força política, não haverá apelo à humanidade ou argumento racional que os mova. Ou melhor, que demova os senhores de terra de usar violência contra a população rural. Todos estamos vendo o aumento assustador do número de líderes camponeses assassinados, nestes dois últimos meses. É preciso denunciar esses crimes. É preciso também denunciar a hipocrisia maior: as reportagens da imprensa capitalista e burguesa, a respeito da “violência dos sem-terra”
.


claricelerman wrote on Nov 25, '05
linkando..
renatovwbach wrote on Nov 25, '05
a classe dominante brasileira completou a sua revolução burguesa em 1964 e, a partir daí, não tem mais qualquer função civilizatória a cumprir na sociedade. É uma classe dominante parasita. Não cede absolutamente nada ao povo.
Verdade...
renatovwbach wrote on Nov 25, '05
a organização dos sem-terra como única alternativa de sobrevivência
Que é isso???
Experimenta conversar com qualquer pequeno agricultor, funcionário do BB e/ou mesmo qquer cidadão comum no interior do Estado do Paraná e veja in loco se a violência é unilateral!!!
O MST é guerrilha mesmo e só está calado pq anda recebendo dindim do Governo Federal... Na política brasileira ninguém mais é vítima: ou é algoz, ou mancomunado, ou comprado, ou massa de manobra (que acredito ser o caso de tantos favelados urbanos do sul do país que se "alistaram" no MST.
Renato.
olharobliquo wrote on Nov 25, '05
O MST é guerrilha mesmo e só está calado pq anda recebendo dindim do Governo Federal... Na política brasileira ninguém mais é vítima: ou é algoz, ou mancomunado, ou comprado, ou massa de manobra (que acredito ser o caso de tantos favelados urbanos do sul do país que se "alistaram" no MST.
Perfeito.
titaferreira wrote on Nov 28, '05
Obrigada Clarice.

Bjs.
Tita
titaferreira wrote on Nov 28, '05
O MST é guerrilha mesmo
Na da contra a luta do MST. A violência não é unilateral, e o MST está em desvantagem. Meu apoio total aos excluídos, a esse movimento de MASSA que você chama guerrilha. "O trabalhador rural sem-terra só conquistará o seu pedaço de chão se for capaz de mobilizar a massa de pobres que vivem no campo e se contar com a solidariedade dos explorados das cidades para criar a pressão popular - sem a qual as coisas ficarão exatamente como estão.".

Obrigada pela visita.
Tita
joakimpaz wrote on May 10, '06
FORC,A !!!
renatovwbach wrote on May 10, '06
Que tal dar condições aos pequenos agricultores de se fixarem na terra e dela gerarem lucros?
Um amigo meu formou 3 filhos em boas faculdades com uma plantação de cebola num pequeno sítio em SP. Hj os filhos se cotizam para comprar sementes e permitir o replantio a cada ano, pois o que a plantação rende não paga nem o próximo plantio.
Antes de dividir "terras improdutivas" (conceito bastante amplo e mal definido) entre incautos que de terra não sabem NADA, que tal antes:
1. Forçar o MP a agir contra a grilagem de terras no Norte/Nordeste?
2. Para de subsidiar somente os grande agricultores? (para estes sim, e só para eles, o agronegócio tem sido vantajoso)
3. Por que não estabelecer conceitos como o D.O.C, que levantou as vinícolas européias da penúria há décadas atrás, expandindo-o para uma variedade de outras culturas locais?
Num país que ainda vive o êxodo rural é "forçação de barra" querer dar terra a quem não tem, nunca teve, é massa de manobra política e que, quando a recebe, quer tratar logo de passar adiante para ganhar um dindi...
Os Saramagos, salgados e afins que me perdoem.
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